Doença Terminal – por Thelma Gregori

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Doença Terminal – por Thelma Gregori

Doença Terminal

     Como é um assunto exaustivamente difundido pela mídia,tomo a liberdade de refletir  sobre o desgaste e a perda da tranqüilidade dos profissionais da saúde ,ao manusear a terminalidade sob o aspecto moral.

     No dia-a-dia da  medicina intensiva ,presenciamos que morrer de forma simples e digna deixou de ser natural em freqüentes situações.

     A medicina persegue a vida,claro, mas e quando esta passa a ser um sofrimento irremediável na presença de uma doença terminal ?

     Até que ponto a equipe médica e multiprofissional deve insistir no tratamento ,que pode perpetuar esse suplício?

     Quando determinar o início de um fim irreversível ?

     Questão difícil,que esbarra em pontos delicados.

     A Ética Médica vem evoluindo na priorização da dignidade do paciente ,quando este não tem mais opção de um viver  minimanente saudável.

     O atual regimento do código de Ética Médica preconiza e defende a não intervenção  com procedimentos desnecessários em pacientes com doenças incuráveis,com apenas um corpo gravemente adoecido,sem chance de recuperação.Propõe oferecer  cuidados paliativos ,levando sempre em conta a opção do paciente.

     O código de ética não tem valor legislativo,é um ato normativo emanado de uma entidade de classe.

     O preceito maior da prática médica é colaborar para a cura e o alívio do sofrimento.Porém, quando os recursos terapêuticos se esgotam , morrer com dignidade é um direito ao qual os doentes podem optar?

     Nos EUA existe o “living will”(testamento em vida),um instrumento legal  que consagrou a autonomia de uma pessoa em decidir seu destino ,diante de uma enfermidade  incurável.Tornou-se efetivo a partir do momento em que a tecnologia médica avançou nos limites da vida contra a morte,esquecendo-se de que esta,dependendo do caso, poderá ser a melhor opção .

    Viver artificialmente passou a ser comum nos ambientes hospitalares,onde existe um  tabu  sobre essa questão de abreviar o sofrimento .

    A proposta é ,e  sempre foi,  lutar pela vida ,ainda que esta se mantenha apenas por dispositivos artificiais : tubos , rins artificiais , respiradores e outros.

    Convém tanta tecnologia que  prorroga  o padecer de um paciente nessa situação,com finalidade vã ?

    Somam-se dias e o indivíduo vai sendo consumido pela doença e pela dor ,que atinge inclusive os familiares.

    O receio de não estar no lado correto da lei leva muitos profissionais a se excederem no tratamento.

    Aliviar o sofrimento,aqui,é não interferir no curso normal da doença implacável,mas  auxiliar num final mais digno,deixando de praticar  inutilidades terapêuticas.

    Contudo, o que é certo? Porque não permitir que um paciente na fase terminal de uma doença incurável encerre seus dias ao lado de seus entes queridos,no aconchego do lar?

    Algumas linhas ,em grandes centros, defendem que quando a doença algoz  dá um xeque-mate e não há mais o que fazer,há de se respeitar o indivíduo por trás do paciente ,que deve ter o direito a um término menos doloroso possível, do ponto de vista  físico,moral , emocional e espiritual.

    Deixo aqui essa questão em aberto para reflexões  no sentido de compartilhar a angústia dos profissionais envolvidos no tratamento do paciente terminal.

    A que vos escreve ,particularmente ,não é movida de coragem para estabelecer a data de término de uma vida,mesmo que esta esteja resumida apenas a um coração que pulsa ,sem pessoa,sem existência.

    Neste momento não sou mais a que exerce cuidados médicos,agora já esgotados, mas alguém que numa visão de esperança ,e porque não de fé (?) , acredita que enquanto o sangue circula pelas veias e artérias existe a possibilidade de um milagre…

    Você , querido leigo, como gostaria que agíssemos  consigo numa situação similar ?

 

  

 Por:

Thelma Eliza Ferreira Gregori

Médica Anestesiologista e Intensivista em Londrina, no Serviço de Cirurgia cardíaca do Norte do Paraná.

Cronista e Musicista

 

 

11 Comentários

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  1. Telma Martins

    Vc já me conhece o suficiente prá saber que eu creio no poder de cura de Deus e creio em seus milagres… contudo, os desígnios de Deus são um mistério prá nós seres humanos. Ele cura se quiser e quando quiser, pois às vezes chega a nossa h…ora mesmo e temos que aceitar. Neste momento, se fosse o meu caso, iria querer passar meus últimos momentos junto de minha família e sem ajuda de aparelhos. O amor da família neste últimos momentos são muito mais eficazes do que os aparelhos que nos mantém vivos. Chegará o momento em que nos tornaremos apenas uns vegetais ligados por máquinas…prá que isso??? prorrogar o sofrimento prá que??? Se eu pudesse fazer este testamento em vida aquí no Brasil, certamente o faria.

  2. Maria Helena Cabral

    Nunca aceitei que um paciente em fase terminal fique longe de sua família e venha falecer numa UTI distante de todos que o amam, mesmo que esteje sendo tratado com respeito, dignidade e atenção.Só de sentir a presença familiar, ele se sentirá mais seguro mesmo que nada mais possa ser feito para a cura.ACREDITO QUE PARA DEUS NADA É IMPOSSÍVEL E QUE ACELERAR A MORTE NÃO FAZ PARTE DE NÓS . Peço sempre que Deus dê muita sabedoria aos profissionais da saúde para que sempre façam o melhor para assegurar o conforto e o bem estar do doente pois morrer dignamente é morrer sem dor e se possível sempre acompanhado de uma pessoa que ele ame e sinta-se bem.

  3. Melina

    Este assunto é sempre delicado, pois envolve muitos aspectos. Sempre caimos em juízo de valor. Até onde vai a medicina e até onde vai a fé do ser humano diante desta situação? Depois também tem o lado emocional, o apego que temos com a pessoa querida, de querer q ela fique sempre conosco, de não admitir sua ausência e não somos criados para morte, temos dificuldade em aceitá-la. Contudo, minhas crenças, valores baseados numa educação cristã, me fazem acreditar que a vida é um dom, portanto, cabe apenas ao Criador o momento de faze-la continuar ou não esta etapa aqui neste plano. Sou contra a eutanásia não apenas por acreditar que milagres possam acontecer, mas acima de tudo, porque esse direito não é nosso….

  4. Thelma E.F.Gregori

    Telma Martins,obrigada pela opinião.O Brasil ainda pensa um pouco diferente,mas sem dúvida a praticidade do americano tem benefícios a serem ponderados.
    Fique por perto.Bj

  5. Thelma E.F.Gregori

    Maria Helena,obrigada por participar.
    Você falou com o coração ,e é sempre muito importante a valoração do afeto ao paciente nesse momento.
    Fique por perto querida.Bj

  6. Thelma E.F.Gregori

    Melina,sua posição tem o peso da fé e sem ela realmente tudo fica mais difícil para os que crêem.
    Como profissional ,independente da fé,acredito em milagres, pq já presenciei alguns. Bj

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